Implementar TISAX na sua organização: guia prático para fornecedores do setor automóvel
A pressão dos fabricantes automóveis e grandes integradores para reforçar a segurança da informação levou TISAX (Trusted Information Security Assessment Exchange) a tornar-se praticamente “bilhete de entrada” na cadeia de fornecimento automóvel europeia.
Para muitas empresas portuguesas, a pergunta já não é “se” vão ter de implementar TISAX, mas “quando” e “como” o fazer de forma eficiente e alinhada com o negócio.
Neste artigo explico, em linguagem prática, o que é TISAX, como se relaciona com a ISO 27001 e quais os passos essenciais para preparar a sua organização para uma avaliação bem-sucedida.
1. O que é TISAX?
TISAX é um mecanismo de avaliação e partilha de resultados de segurança da informação, desenvolvido especificamente para o setor automóvel. É gerido pela ENX Association em nome da associação alemã da indústria automóvel (VDA – Verband der Automobilindustrie). Microsoft Learn+1
Em vez de cada fabricante exigir auditorias próprias a cada fornecedor, TISAX cria uma plataforma central onde:
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as empresas são avaliadas por auditores reconhecidos,
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obtêm um “label TISAX” com um determinado nível/objetivo de avaliação,
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e partilham esse resultado com vários parceiros de negócio, evitando duplicar auditorias. portal.enx.com+1
Importa sublinhar que falamos de um “label” TISAX, não de uma certificação ISO clássica. O referencial assenta no catálogo VDA ISA (Information Security Assessment), construído com base na ISO/IEC 27001 e 27002, mas adaptado ao contexto automóvel (proteção de protótipos, testes, eventos, etc.). Microsoft Learn+2
2. TISAX vs. ISO 27001: concorrentes ou complementares?
Para muitas organizações, a dúvida é: “Se já tenho ISO 27001, preciso de TISAX?”
A resposta curta é: provavelmente, sim, se quiser trabalhar ou continuar a trabalhar com determinados OEMs ou grandes fornecedores automóveis.
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A ISO 27001 define os requisitos para um Sistema de Gestão de Segurança da Informação (SGSI/ISMS).
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TISAX usa essa base, mas traduz-a em requisitos e objetivos de avaliação específicos para o setor, incluindo:
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proteção de protótipos e veículos de teste;
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segurança de instalações e pistas de teste;
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gestão segura de dados de desenvolvimento e de produção;
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requisitos adicionais associados a níveis de proteção “alto” e “muito alto”.
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Na prática:
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se já tem ISO 27001, tem uma excelente base e o projeto TISAX será um “ajuste e extensão”;
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se ainda não tem, a implementação de TISAX pode (e deve) ser pensada logo como um SGSI alinhado com ISO 27001, para não “construir tudo duas vezes”.
3. Ponto de partida: clarificar requisitos e maturidade
Antes de lançar um “mega-projeto”, é crucial responder a três perguntas simples:
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Que clientes pedem TISAX – e com que exigência?
Normalmente, o OEM ou cliente indica:-
os objetivos de avaliação TISAX (TISAX Assessment Objectives / Labels); VDA ISA Berater+1
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o nível de avaliação (AL2 – avaliação documental remota; AL3 – avaliação com visitas on-site). dataguard.com+1
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Qual o âmbito relevante?
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país(es), localizações, centros de engenharia, parceiros críticos;
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processos (desenvolvimento, prototipagem, testes, produção, serviços partilhados);
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sistemas de informação e aplicações críticas.
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Qual a maturidade atual da segurança da informação?
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já existe política de segurança, gestão de acessos, gestão de incidentes?
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existem registos e evidências ou tudo é “informal”?
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Uma análise de gap inicial face ao VDA ISA (ou face à sua ISO 27001 atual) é o ponto de partida lógico. dataguard.com+1
4. 7 passos para implementar TISAX na prática
Passo 1 – Definir o âmbito TISAX
O âmbito é a “fronteira” da avaliação. Deve ser muito bem pensado, porque afeta:
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o esforço de implementação,
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o custo da avaliação,
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e o valor para os seus clientes.
Normalmente inclui:
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Entidades legais envolvidas (empresa A, filial B, etc.)
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Localizações físicas (sede, centro de I&D, fábrica, laboratório de testes)
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Processos e serviços (desenvolvimento, prototipagem, serviços IT, etc.)
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Sistemas de informação relevantes.
Esta definição é registada posteriormente no portal ENX, como “scope” da avaliação. portal.enx.com+1
Passo 2 – Criar a equipa de projeto e governance
TISAX não é um projeto de “apenas TI”. Envolve pessoas, processos e tecnologia.
Tipicamente deve existir:
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Sponsor de topo (Direção Geral / Administração);
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um responsável pela segurança da informação (CISO, IT Manager, ou equivalente);
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representantes de:
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IT/Infraestruturas;
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Engenharia/Operações;
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Recursos Humanos;
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Jurídico/Contratos;
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Proteção de Dados (DPO) – para alinhar com RGPD;
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Fornecedores/Compras (quando serviços críticos são subcontratados).
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Defina logo:
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comité de segurança;
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papéis e responsabilidades;
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calendário de reuniões e reporting.
Passo 3 – Mapear controlos com base no VDA ISA / ISO 27001
O passo seguinte é “traduzir” o VDA ISA para a realidade da sua empresa. Em termos práticos:
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Criar uma matriz de controlos com:
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cláusulas VDA ISA / controlos ISO 27001 relevantes;
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processos internos afetados;
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responsáveis por cada medida.
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Priorizar controlos em áreas típicas como:
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Governance e políticas (política de segurança, classificação da informação);
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Gestão de ativos e acessos;
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Segurança física e ambiental;
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Segurança em desenvolvimento e teste;
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Backup, continuidade e recuperação;
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Gestão de incidentes de segurança;
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Segurança de fornecedores e contratos;
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Requisitos específicos de protótipo e testes (onde se aplicam).
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Passo 4 – Implementar medidas técnicas e organizativas prioritárias
Com a matriz de gap definida, é altura de executar.
Alguns exemplos de medidas que surgem recorrentemente em projetos TISAX:
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reforço de controles de acesso físico (torniquetes, registo de visitantes, zonas segregadas);
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melhoria de controles de acesso lógico (MFA, gestão de privilégios, revisão periódica de acessos);
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encriptação de dados em repouso e em trânsito;
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procedimentos formais de gestão de vulnerabilidades e patching;
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políticas e procedimentos claros para:
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classificação de informação;
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trabalho remoto e uso de dispositivos móveis;
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gestão de suportes de informação (USB, discos externos, etc.);
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contratos e NDAs adaptados a protótipos e informação confidencial.
O objetivo não é atingir “perfeição”, mas sim uma maturidade consistente e demonstrável (com evidências) nos domínios relevantes.
Passo 5 – Documentar processos e evidências
Num projeto TISAX, o que não está documentado, “não existe” aos olhos do auditor.
É essencial produzir e manter:
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políticas aprovadas pela gestão;
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procedimentos operacionais (ex.: gestão de incidentes, gestão de acessos, onboarding/offboarding);
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registos:
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logs de acessos;
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reports de vulnerabilidades;
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registos de formação;
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atas de comités de segurança;
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registos de testes de continuidade.
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O próprio handbook TISAX sublinha a necessidade de documentação de processos e evidências de implementação para demonstrar o nível de maturidade do SGSI. enx.com
Passo 6 – Registo no portal ENX e seleção do auditor
Com o SGSI razoavelmente estruturado, é altura de:
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Registar a organização no portal ENX e definir:
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dados da empresa;
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âmbito (scope) da avaliação;
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objetivos TISAX e nível pretendido.
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Selecionar um fornecedor de auditoria aprovado pela ENX
Existem vários organismos (TÜV, SGS, etc.) autorizados a conduzir avaliações TISAX e emitir o respetivo label. SGSCorp+2TÜV SÜD+2 -
Acordar com o auditor:
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calendarização;
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tipo de avaliação (AL2 – remota; AL3 – com visitas on-site);
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idiomas de trabalho;
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locais incluídos.
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Passo 7 – Preparar e realizar a avaliação TISAX
Em termos de auditoria, o processo TISAX tem duas grandes fases: preparação e avaliação. TÜV SÜD+1
Preparação:
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realizar um self-assessment detalhado no questionário VDA ISA;
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validar internamente as respostas e evidências associadas;
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assegurar que toda a documentação está consolidada e facilmente acessível;
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preparar as equipas que irão interagir com o auditor (briefings, simulação de entrevistas).
Avaliação:
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entrevistas com responsáveis e equipas operacionais;
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análise documental detalhada;
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verificação no local (AL3): instalações, controlos físicos, procedimentos em prática;
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identificação de não conformidades e recomendações.
Após o fecho da avaliação, é emitido o relatório TISAX, e – se o resultado for positivo – o label TISAX é registado no portal ENX para partilha com os seus parceiros. portal.enx.com+2
5. Boas práticas e erros a evitar
Boas práticas:
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Tratar TISAX como um projeto de negócio, não apenas de TI.
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Aproveitar sinergias com ISO 27001, RGPD e outros requisitos de compliance.
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Manter um plano de comunicação interna, para que colaboradores entendam o “porquê” das mudanças.
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Investir em formação contínua em segurança da informação e consciencialização.
Erros frequentes:
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Começar pelo “checklist” sem uma visão global de riscos e prioridades.
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Definir um âmbito demasiado ambicioso (tudo e mais alguma coisa) e tornar o projeto incomportável.
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Deixar documentação e evidências para “a véspera” da auditoria.
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Encarar TISAX como evento pontual, em vez de um ciclo de melhoria contínua.
6. Como a iCompliance pode apoiar a sua implementação de TISAX
A implementação de TISAX exige coordenação, experiência e método. A iCompliance pode apoiar em várias frentes, nomeadamente:
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Avaliação de gap TISAX/ISO 27001 vs situação atual;
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definição de âmbito e objetivos de avaliação;
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desenho e implementação de políticas, procedimentos e registos;
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integração com requisitos de RGPD e proteção de dados (em articulação com iPrivacy.eu);
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preparação da organização para a auditoria (simulação de entrevistas, revisão de evidências);
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utilização de plataformas como o iComply.pt para gerir tarefas, riscos, ações corretivas e evidências de forma centralizada.
Se está a avaliar a necessidade de obter um label TISAX ou já tem requisitos concretos de clientes, podemos ajudá-lo a estruturar um plano de implementação faseado, realista e alinhado com o seu negócio.
7. Próximos passos
Se a sua empresa:
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atua no setor automóvel (ou quer entrar);
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recebe pedidos de “TISAX label” de OEMs ou grandes fornecedores;
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ou pretende reforçar a credibilidade da sua segurança da informação,
então faz sentido começar já:
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Identificar requisitos de clientes e âmbito provável;
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Realizar um diagnóstico inicial face ao VDA ISA/ISO 27001;
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Definir um plano TISAX para os próximos 6–12 meses.
Para ajudar o arranque faça download de uma checklist resumida de implementação TISAX em formato que possa usar como PDF, para tal solicite abaixo, nos comentários deste artigo.